terça-feira, 10 de março de 2009

A serenidade de Tenzin Gyatso

Nascido em 1935, nono de 16 irmãos, nove dos quais sobreviveram até idade adulta, Tenzin Gyatso (originalmente Lhamo Dhondrub) foi reconhecido aos dois anos como o décimo-quarto Dalai Lama. Passou as últimas cinco das suas sete décadas como líder espiritual do budismo tibetano fora da sua terra-natal, fugindo do Tibet em 1959 após nove anos de ocupação chinesa. Atualmente, reside na India e sua ocupação principal continua sendo a procura por uma saída diplomática para o conflito tibetano.
Na época da invasão, patrocinada pelo recém empossado governo de Mao Zedong com o intuito de repudiar o sentimento de autonomia do Tibet e reforçar a presença do comunismo na região, o governo tibetano foi feito prisioneiro pelo Exército de Libertação Popular, deixando para trás um Dalai Lama de apenas 15 anos como o líder político e religioso de todo um povo. A oposição à ocupação chinesa cresceu nos anos 50, tornando-se insustentável em 1959, quando os Khampas, uma fraca resistência armada tibetana, solicitaram formalmente o apoio do Dalai Lama, recusado por violar o seu princípio de não-violência. Ansioso por uma saída diplomática e contrariando todas as expectativas, ele aceitou um convite de representantes do governo chinês de assistir a uma peça de teatro desprovido de segurança. Com o receio de que seu líder viesse a ser sequestrado, uma multidão estimada em 30.000 pessoas cercou o palácio de verão do Dalai Lama, a fortaleza de Nobulingka, para impedir a sua saída. Poucos dias depois, com a explosão de duas granadas chinesas, ele foi finalmente convencido a deixar o palácio e o país. Com uniforme militar e armado, Tenzin Gyatzo passou desapercebido por entre o povo e fugiu para a Índia, de onde nunca mais retornaria. Na semana seguinte, ataques chineses mataram milhares de tibetanos acampados fora do palácio, tentando proteger o seu líder. O governo local foi então dissolvido e substituído por militares chineses, que conduziram à prisão e tortura milhares de tibetanos. Uma procura sistemática aos revoltosos foi conduzida, resultando em muitas execuções. As autoridades em Beijing oficialmente negaram a revolta e atribuíram o desaparecimento do Dalai Lama a um sequestro promovido pelos Khampas.Tenzin Gyatzo escreveu algumas dezenas de livros e proferiu um sem-numero de palestras em todos os continentes, encarnando um espécie de porta-voz dos povos oprimidos e missionário moderno dos ideais de fraternidade e liberdade. Foi agraciado com dezenas de prêmios internacionais, incluindo o Nobel da Paz em 1989, e os livros editados sobre ele chegam às casa das centenas. Após vivenciar e sobreviver a tantos episódios preconizados pela violência e intolerância, a tônica da pregação do Dalai Lama em seu longo exílio tem sido a mesma dos primeiros dias: Serenidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A coragem de Paul Rusesabagina

O que você faria para proteger a sua família de hordas com milhares de fanáticos homicidas armados com facões e machados? Paul fez de tudo. Não só por sua família, mas por centenas de outras em Kigali, Rwanda. Um país pequeno mas dividido por duas etnias cuja rivalidade foi estimulada de forma insidiosa e irresponsável pelos colonizadores belgas, ao escolher uma delas, a Tutsi, como sua preferida em todos os sentidos. Por mostrarem traços físicos mais agradáveis aos europeus, recebiam melhores cargos, salários e status social. A maioria da população pertencia à etnia Hutu, cuja animosidade ganhou corpo com a independência do país em 1962. Todos os nativos eram obrigados a portar um documento classificando a etnia a qual pertenciam, e Paul Rusesabagina era considerado Hutu. Porém, era filho de mãe Tutsi, e essa mistura por si só foi suficiente para que não houvesse qualquer sentido em partidarizar-se por ideais racistas e genocidas dos seus conterrâneos.
Apesar de ter nascido em uma família humilde, Paul teve uma boa educação, tanto formal quanto informal. Após cursar a faculdade de hotelaria em Nairobi, sua devoção ao trabalho e personalidade cativante de um autêntico gentleman lhe alçaram rapidamente ao cargo de gerente geral de uma empresa hoteleira em Kigali. Essa era a sua profissão quando o genocídio promovido pelos Hutus radicais, os Interahamwe, começou em 6 de abril de 1994. Foi tamanha a truculência e barbárie, que em cerca de 100 dias foram mortas mais de oitocentas mil pessoas, entre Tutsis e Hutus moderados, e poucas delas por armas de fogo. O temor por sua esposa Tatiana, uma Tutsi que teve quase toda a família dizimada, o levou a esconder-se no hotel Mille Collines, que com o passar do tempo passou a ser a única esperança de sobrevivência de refugiados, órfãos e feridos. Não sem conhecimento dos Interahamwe, que só puderam ser contidos graças às constantes intervenções de Paul junto aos seus conhecidos no governo local e no extrangeiro. Foram 76 dias de muita coragem, abnegação e determinação, onde todas as suas economias, pertences pessoais e estoques de bebidas foram usados para subornar as autoridades e negociar a prorrogação da sua vida e a de centenas de outras, sem qualquer intervenção humanitária ou militar internacional.Ao final desse longo transe, Paul, sua família e mais 1268 cidadãos refugiados em seu hotel sobreviveram ao massacre. Após reencontrar e adotar duas sobrinhas órfãs em um campo de refugiados, Paul fugiu para a Tanzânia com a ajuda da Frente Patriótica Rwandesa, a resistência que acabou por derrotar os Interahamwe. Depois de retornar e viver em Rwanda por mais dois anos, conseguiu asilo na Bélgica em 1996, vivendo em Bruxelas com a família até hoje.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A paz de Mohandas Gandhi

Conhecer a vida de Mohandas Karamchand Gandhi, o conhecido "Mahatma" (A Grande Alma), é entender o processo de libertação da Índia de mais de dois séculos de domínio colonial britânico, quando os indianos eram considerados cidadãos de segunda classe. Nascido em 1869, não conheceu preconceito ou intolerância até formar-se em direito em Londres e retornar a Índia em 1891, para praticar a advocacia. Dois anos depois vai para a África do Sul, outra colônia britânica, onde inicia um movimento pacifista após ser espancado por defender os interesses dos indianos que lá moravam. Volta para a Índia em 1914 e difunde seu movimento, cujo método principal é a resistência passiva. Prega a subversão ao domínio britânico, usando a não violência como forma de luta.
Em 1922, organiza uma greve contra o aumento de impostos, na qual uma multidão queima um posto policial. Detido, declara-se culpado e é condenado a seis anos, mas sai da prisão em 1924. Em 1930, lidera marcha para o mar, quando milhares de pessoas andam mais de 320 quilômetros a pé, para protestar contra os impostos sobre o sal. Gandhi anuncia à multidão que pretende continuar em sua campanha pela desobediência civil, para obrigar a Inglaterra a dar a independência à Índia. É detido outra vez pelos britânicos. Em 1947 Gandhi tenta restabelecer a paz e evitar a luta entre hindus e muçulmanos, aceitando a divisão do país e dando início à décima-quinta greve de fome. O sacrifício pessoal de Gandhi consegue o que nem os políticos nem o exército conseguiram: a Índia conquista sua independência e é criado o Estado muçulmano do Paquistão. Porém, a divisão atrai para ele o ódio dos nacionalistas hindus, sendo assassinado por um extremista poucos meses depois, em janeiro de 1948, aos 78 anos.
Gandhi buscava acima de tudo o auto-conhecimento, o auto-controle e o amor entre as pessoas; para aumentar sua percepção e sensibilizar o povo em situações de conflito, promoveu os vários e demorados jejuns. Sempre tecendo com sua roca de fiar, usava com muita dignidade, humildade e sabedoria esses longos momentos, bem como os passados na prisão. Entendia que sua missão era lutar por uma Índia mais justa, solidária e pacífica, estendendo as mesmas práticas para a humanidade como um todo. Para tanto nunca usou nem defendeu o uso de força bruta, mas fundamentava suas ações nos princípios do Satyagraha para combater o regime imperialista britânico. O princípio do Satyagraha ou da não-agressão, traduzido como o caminho ou a busca da verdade, foi influenciado pelo Bhagavad Gita e por crenças hindus e jainistas, inspirando também gerações de ativistas democráticos e anti-racismo, incluindo Martin Luther King e Nelson Mandela.

A persistência de Nelson Mandela

Poucos homens da atualidade encarnaram tão completamente o conceito de persistência como o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela. Principal representante do movimento anti-Apartheid, considerado pelo povo um guerreiro em luta pela liberdade, era tido pelo governo sul-africano como um terrorista e passou quase três décadas na cadeia. Sua libertação significou um marco na história contemporânea e mereceu um prêmio Nobel. Sua liderança e seus ideais pacíficos de igualdade para todas as etnias da África do Sul lhe granjearam a presidência da república aos 76 anos.
Filho de um chefe da etnia Xhosa, Mandela nasceu em 1918 num vilarejo remoto da região do Transkei. Aos sete anos, tornou-se o primeiro membro da família a freqüentar a escola, onde lhe foi dado o nome inglês "Nelson". Com 19 anos, começou o curso de direito na Universidade de Fort Hare, de onde foi expulso ao final do primeiro ano após envolver-se num boicote contra as políticas universitárias. Continuou os estudos de direito na Universidade da África do Sul (UNISA) e na Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, onde se envolveu na oposição ao regime do apartheid. Essa era a política de exclusão sistemática de negros, mestiços e indianos aos direitos políticos, sociais e econômicos mais básicos.
Uniu-se ao Congresso Nacional Africano (CNA) em 1942, fundando a Liga Jovem logo depois. Sua participação no CNA tornou-se mais ativa até que em 1955 juntou-se ao Congresso do Povo, divulgando a Carta da Liberdade – documento fundamental para a causa anti-apartheid.Comprometido de início apenas com atos não-violentos, Mandela e seus colegas aceitaram recorrer às armas após o massacre de Sharpeville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana atirou em manifestantes negros, matando 69 pessoas e ferindo 180.Em agosto de 1962 Nelson Mandela foi preso após informes da CIA à polícia sul-africana, sendo sentenciado a cinco anos de prisão por viajar ilegalmente ao exterior e incentivar greves. Em 1964 foi condenado a prisão perpétua por sabotagem e conspiração. Durante os anos 1970, ele recusou uma revisão da pena e, em 1985, não aceitou a liberdade condicional em troca de abdicar da luta anti-apartheid. Mandela continuou na prisão até fevereiro de 1990, quando a campanha do CNA e a pressão internacional conseguiram que ele fosse libertado em 11 de fevereiro, aos 72 anos, por ordem do presidente Frederik Willem de Klerk. Nelson Mandela e Frederik de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da paz em 1993. Como presidente do CNA (de julho de 1991 a dezembro de 1997) e primeiro presidente negro da África do Sul (de maio de 1994 a junho de 1999), Mandela comandou a transição do regime de minoria no comando, o apartheid, ganhando respeito internacional por sua luta em prol da reconciliação interna e externa. Após o fim do mandato de presidente, em 1999, Mandela voltou-se para a causa de diversas organizações sociais e de direitos humanos. Ele recebeu muitas distinções no exterior, incluindo a Ordem de St. John, da rainha Elizabeth 2ª., a medalha presidencial da Liberdade, de George W. Bush, o Bharat Ratna (a distinção mais alta da Índia) e a Ordem do Canadá.Mandela retirou-se da vida pública em 2004, aos 85 anos. A comemoração de seu aniversário de 90 anos, em julho de 2008, foi um ato público em Londres, contando com a presença de artistas e celebridades engajadas nos movimentos de libertação dos povos.

(Sobre texto da UOL Educação)